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♥ figurantes

Junho 3, 2008

Há anos eu tenho essa quase-obsessão, mas ontem foi foda. Um pensamento recorrente acerca de figurantes e atores secundários de filmes antigos (antigos tipos anos 80, mais velhos que isso eu não ligo muito). Eu descobri que figurantes são interessantes. Além de, ahn, úteis pra compor cenas de galera e tal. Mas não pode ser só essa a serventia deles. Eu acho eles legais e me importo com eles. Pronto, falei.

Eu estava vendo pela 437ª vez “Harry & Sally” e na cena do casamento, um figurante conversando com outra figurante enquanto dançavam me chamou a atenção. Fiquei mentalmente dublando o que eles estavam “conversando”. Dublar filmes no “mudo” é sempre válido. Mas quando eles não tem texto nenhum, não importa se o botão de mudo está ligado, desligado, emperrado, parece ser mais legal dublar – por ser mais fácil – mas nem é. Surge espaço pra muitas dúvidas. Muitas. Ah, eu nunca fui figurante, não conheço o protocolo: você não tem texto, não necessariamente conhece as pessoas com as quais vai fingir conversar aqui e ali, o que fazer? Você conta sua vida pra ela? Inventa um personagem e interpreta o tempo inteiro só de raiva? Fala frases sem sentido obrigatório, fora da ordem sintática regular, enfim, exercita a parcela de insanidade do seu dia? É o que eu faria. Claro.

Na pior das hipóteses – a) se você estiver fazendo uma novela; b) daquelas que não acabam nunca; c) em um ambiente estudantil de gente bonita, intrigas e azaração; d) se a novela for sobre mutantes em clima de gente bonita, intrigas e azaração; – ainda assim tem um lado bom, porque por mais que você tenha que exercitar sua insanidade com as mesmas pessoas, criar um “vínculo facial” justifica alguns atos. Assim, por exemplo, eu nunca lembro nomes. Eu memorizo a fisionomia. E mesmo assim, se a pessoa muda o cabelo, começa a usar óculos, remove uma pinta gigante daquelas que tem pelinhos da testa, eu perco muito do meu senso de referência. “Vínculo facial” é aquilo que possibilita um oi de sobrancelhas: você passa pela pessoa com a qual mantêm um vínculo facial, ou seja, conhece de rosto (ou de pinta no rosto) e mexe suas sobrancelhas pra ela. Ela, magicamente, mexe de volta, ou sorri. Na faculdade é legal porque muitas pessoas acham que tem um vínculo facial comigo mas oi, eu não tenho vínculo facial com elas. Não pode ser unilateral, também, quando é “de verdade”. Então, claro, é preciso não deixar transparecer que não faz a mais puta idéia de “por que essa pessoa está mexendo suas sobrancelhas pra mim?” e sorrir, porque eu não mexo minhas sobrancelhas pra qualquer um. No mundo figurativo, por sua vez, é tudo permitido. Vale ser unilateral. Um link quebrado de vínculo facial é o suficiente para escolher o ALVO.

Por exemplo, se você figurar do lado de uma menina constantemente, deduz-se que você foram intruídas para tal (você já não tem nome, que sacanagem seria se não lhe permitissem ter um núcleo de amizades, um contexto!), ou que realmente ficaram amigas enquanto faziam o digno, invejado e sacrificante trabalho de fingir que se importa com o que acontece em volta – ou não. Ela pode apenas ter sido o alvo. Mas, como esse tipo de dedução não é (ainda) do senso-comum, ela não vai poder fugir, vai pensar que você foi instruído a ficar ali e tal. Aí é festa: dependendo de quais sejam os seus interesses, pode repassar o discurso do brinde das bodas de ouro dos seus avós com ela, a sua parte do seminário sobre arte contemporânea, alguns argumentos políticos para algum eventual debate oportuno (nunca se sabe quando é preciso fingir se importar fora do trabalho), praticar piadas, cantadas, frases de comando para serem usadas em bichos de estimação (“em”? mesmo? ou “com”? mandar algum ser fazer algo não é mandar com ele, mas sim mandar nele… Né? Ah, okay. É que eu imaginei alguém gritando dentro de um cachorro. Foi perturbador. Desculpa, pode continuar)… a lista é infinita. E ainda dá pra levantar uma renda – e falar frases disconexas. Contanto que a expressão facial seja sempre cara de quem está proferindo tópicos de comunidades do orkut voltadas para o público que assiste a novela para a qual você trabalha e/ou neo-clichês que nomeiam algumas outras comunidades. Você pode passar o dia inteiro falando “sou legal, não estou te dando mole” com diferentes expressões citadas anteriormente e já era. Figuranticamente perfeito.

No caso dos figurantes de filme, acredito que seja uma vida mais efêmera. Nem mesmo eu fico procurando figurantes repetidos em núcleos diferentes de filmes. Provável que em filmes, como os trabalhos são mais curtos, dá pra variar nos figurantes. Aumentar a rotatividade e tal.

Enquanto eu via os figurantes dançandinho no filme, fingindo se importarem com o casamento, com o Harry e a Sally brigando avulsamente, enquanto tentava encaixar frases em suas bocas (não dava, eles teimavam em ficar rodando) eu pensei sobre o futuro deles. Onde eles estão? Porque caralhos não existe um banco de dados universal dedicado a isso? Você digita o nome do filme, o segundo exato que o figurante aparece, se possível a roupa que estava vestindo (é, eu sei que é difícil) e TA-DA! Aparece o nome, endereço, email, tipo sanguíneo e social security number do sujeito. Ia ser lindo. Suspiro. O mundo ia ser um lugar melhor.

Eu acho que eu vou ser figurante. Namoral, fingir que me importo, fingir que escuto, fingir que converso e “claro que sim, estou prestando atenção, estou olhando pra você não estou?” era a minha especialidade quando era mais nova – pra que fui deixar esse talento adormecer? Droga. Mas não tem problema, a persistência é a alma do negócio. Eu ia até mesmo poder conhcer o protocolo e ver se realmente dá pra fazer tudo que eu almejo dessa profissão de férias tão foda.

E sério, ser figurante deve ser muito divertido. Ficar do lado de alguém por obrigação – por horas – exercitanto a esquizofrenia que habita cada um de nós ou mesmo qualquer coisa ahn, normal, que lhe venha à cabeça, sem que a pessoa possa fugir correndo – maravilha.

Ser PAGO pra isso? Estupendo.