Receber elogios é um exercício de desvio de olhar. Na verdade, qualquer coisa que envolva falar de mim pra quem eu não tenho intimidade. Mas alguém pode achar que é o nervoso do momento. Pois saiba que ontem eu senti que estava desviando os olhos do papel onde os tais elogios estavam escritos.
Eu admiro muito quem diz “que é isso”, “imagina”, “vai se foder” nessas horas. Dependendo do contexto e da validade, eu fico de bochechas em vermelhão francês e não consigo olhar nos olhos das pessoas. A saída é o auto-entretenimento: sentar, analisar as unhas, dar uns pulinhos, cantar, etc.
Por isso que eu gosto de conversar no ônibus. Onde as duas pessoas, lado a lado, sentam olhando pra frente e conversam, sem precisar ficar se olhando. Metrô daqui às vezes não dá pra fazer assim. O de SP não dá quase nunca. Isso me incomoda um pouco. O metrô, quer dizer.
O jeito é fazer uso do campo visual de alguma forma e, por exemplo, decorar sinais e marcas no corpo das pessoas. O corpo que a gente mostra pela roupa, pescoços, braços, mãos, orelhas. Não sei qual a real utilidade pra isso, mas eu me sinto bem de saber que hoje eu sei que posso identificar Fulano por uma constelação de pintinhas no braço direito – e que semana passada eu nem sabia. Eu observo muito as bocas também, porque fica mexendo conforme a pessoa fala (não é mesmo, captain obvious?) e é meio hipnótico. Eu acho boca tão legal. \o/
Mas também me dá agonia olhar nos olhos, pois, não sei quanto a vocês, mas eu só consigo olhar direito pra um olho de cada vez, e isso não é um ato inconsciente daqueles que o cérebro corrige e tal. Me faz falta não poder olhar e ver os dois olhos. Me dá um desconforto incrível. Sabe, não é pedir muito. Meu deus me dá simetria. MINDÁ.
Mas é sempre estranho. O lance dos elogios, quero dizer. Apesar de quando no papel não terem olhinhos questionando porque é que é que eu desvio e aí começar com a loucura de jump to wrong conclusions e tudo mais eles ficam ainda mais incisivos. Bom sentido. É que as palavras têm pesos, né. Diferentes. Tá, não quis dizer peso-peso. Resistência do ar, pans. Elas tem superfícies diferentes e tal. Já ouviram uma frase caindo no ar? Qualquer uma. Tem frases que caem, frases que deitam, frases que sentam, cruzam as pernas, cruzam de novo – pro outro lado – e aí deitam. Tenho até uma amiga que consegue sempre deixar elas flutuandinho, tamanha a sua sensibilidade. Mas no papel é diferents. Você pode ler de novo e de novo e se sentir tão tão bem só com aqueles tracinhos de tinta. E eu sou fraca com isso. Minhas amigas devem saber, porque ficam colando postits em mim – em mim – com frases bonitinhas, ou coraçãozinho-de-mãozinha, ou alguma das minhas pérolas. Mas é sempre tão carinhonhinhonhinho que eu fico toda feliz. Hahaha.
É engraçado, né, que no papel nem deitar as palavras deitam. Elas ficam em pé, braços abertos e abraçam a gente de cima e por cima dos nossos braços – abraço de quentinho. Tal como um amigo mais alto faria.
Ou um urso muito muito gentil.