(Continuando na linha querido diário, porque tá foda.)
Estava eu chegando tarde da faculdade indo da barca pro terminal pegar o ônibus, cansada e entediada porque não levei músicas hoje (baterias não me têm) e parei pra abastecer-me.
Leia-se parei na banca de jornal pra comprar mangá.
Falem o que quiserem, mas eu acho divertido e tudo mais e às vezes tem putaria e é engraçado A VALER. Mas não é tipos hentai que as pessoas não tem vértebras e expelem fluidos por todos os buracos do corpo. Mesmo que sejam buracos fechados. Mesmo que sejam umbigos. Isso me deixa meio aflita e me impede de contemplar as obras com a devida atenção.
Aí procurei, procurei, e esse eu já tenho, esse eu não tenho porque é feio demais, esse é daqueles draminhas então nem gosto, esse tá lançando mas é caro então compro outro dia, ah, pronto, achei. Aí peguei e fui na fila pagar. Mas lá eu me deparei com um cara, um homem-feito (acho foda esse termo, é como se todos outros homens fossem protótipos tipos aquelas coisas lindas que me deixam com frio na barriga, como se tivesse apaixonada, mas nunca existem de verdade), de boné e uma faixa do NARUTO pendurada no pescoço. Sem ofensas pra adultos que usam faixas do naruto na Liba e tudo mais, mas eu moro em Niterói. Adultos não andam com faixas do naruto penduradas por aí. Nem meu irmão se atreve e nem pentelhos ele tem. Na fila uma senhora tentava ler a capa do negima enquanto eu procurava na bolsa o dinheiro e ela vira pra mim e fala:
- Meu filho faz coleção disso.
E eu, numa incrível demonstração de como ser escrota não dou um sorriso, não faço nada além de responder mecanicamente, ao mesmo tempo em que guardo meu troco na bolsa:
- Eu também.
E fui embora. Assim. Eu nem fiz cara de “O RLY” ou expressei de alguma forma o quanto eu não poderia me importar menos com o filho dela e o que ele coleciona ou deixa de. Mas acabou sendo pior, acho. Porque foi tão plana de qualquer tipo de reação a minha fala que não merece nem esse itálico.
Porra.
Não que eu ache que eu deva ser legal com todas as pessoas do planeta, inclusive aquelas que ficam invadindo meu espaço pessoal para ler uma capa de revista de cabeça pra baixo, mas se tem uma coisa que eu sou contra é a hostilidade gratuita. Mesmo. É porque eu tenho tr00 na minha cabeça que carão não leva ninguém a lugar nenhum e andar na rua como uma diva é bastante ridículo. E digo logo: se algum dia eu passar reto por alguém que conheço, nem que seja de vista e não falar, ou ao menos dar um sorrisinho, é porque eu estou sem óculos. Pode reparar.
Mas eu nem vou tentar me defender, porque se eu falar que estava cansada demais, não vai mudar em nada. Nem se eu alegar estar estressada porque meu óculos tava escorregando (ele tá com pernas abertas) e eu não tinha mão pra ajeitar e queria mais era chegar em casa. O fato é que depois da minha resposta mecânica insípida eu fui embora e ouço uma voz bastante estranha falar alto algo como “MEU, MEU” e ouço a mulher da fila falar “é sim, filho, é como os seus”. E quem era o filho dela?
O moço da faixa do naruto. Que se mexia de forma peculiar e carregava uma mala como se fosse um filho.
Uns cinco passos depois eu já sentia vontade de dar meia-volta e abraçar ela. E ele. Sei lá, fazer alguma coisa que desfizesse a imagem péssima que eu estava fazendo de mim mesma. E não é simples sentimento vazio de oh-coitado-ele-é-deficiente. Não. É só que eu já tinha olhado estranho pra ele e depois fui grossa com a MÃE dele, no mesmo espaço de 5 minutos. Mas eu não voltei. Fui pegar meu ônibus sentindo muita vergonha de ser esse ser humano horrível, sujo e cretino e uma super bitch que inflige atos aleatórios de hostilidade a indefesos desconhecidos.
Ou seja, eu estava me sentindo o Alex. Só que com uma generosa dose de culpa no moloko e sem um pingo de sensualidade no olhar.
Entrei no ônibus, sentei, nem toquei no mangá porque ainda estava meio assoberbada com a situação, quando o moço do naruto e a mãe entram no mesmo ônibus. Qual a probabilidade, né? Caralho. De longe, meio enfiada no texto que tava tentando ler, vi que ele falava alto e com uma voz esquisita porque, além de qualquer outra coisa que não posso discernir, ele é surdo. E falava com a mãe por linguagem de sinais e usava um aparelho. Enquanto ela andava para mudar de lugar e ir sentar-se onde ele queria, ela olhou na minha direção e tenho certeza que me viu olhando pra ela. Mas eu olhei por cima dos óculos e não conseguiria distinguir nem linhas faciais no rosto dela, que dirá pra onde ela poderia estar olhando.
Das duas uma: ou eu começo a usar lentes de contato ontem ou eu volto a pregar o estilo free hugs de viver e supero o trauma, encarando o que aconteceu hoje do jeito que uma pessoa um pouco menos apocalíptica encararia: puxa, que chato, não?